Resumo:
O autor expõe sua visão a respeito do casal como um sistema humano temporal e
funcional, cujo vínculo fundamental é o amor e o desenvolvimento da
potencialidade de cada membro. Quando esta função deixa de ser cumprida e
aparecem conflictos, a crise deve ser abordada, se necessário, com a ajuda de
uma terapia de casal para amadurecer sua resolução ou para deixar de maneira
cordial esta relação, para permitir que possa seguir existindo uma evolução
pessoal sendo o ato da separação como o último ato de amor de um casal.
Palavras
chaves: Sistemas humanos, casal, amor, desamor, crise, terapia de casal.
Todas as pessoas adultas de alguma maneira,
conhecem a experiência do amor, da paixão e também do desamor e das consequências
emocionais que implica tudo isso.
Amor é um conceito abstrato, portanto, subjetivo,
de fácil interpretação e que pode ser vivido em determinados momentos da
vida, com determinados objetos, entendendo por objeto, aquilo que recebe afeto.
O amor pode ser sentido com um filho, um animal, uma casa (objeto físico), uma
entidade espiritual e também com uma pessoa, com um companheiro. Nessa ocasião,
vou centrar-me no último caso. Irei descrever algumas particularidades do
sentimento amororso compartilhado, vivido com outro/a e que permite, facilita e
desenvolve a instituição do casal.
Desde a psicologia profunda a função da relação
do casal é a de poder desenvolver a capacidade de amar que existe em cada ser
humano. A de poder ter espaço para canalizar esta parte do instinto do ser
humano, esta necessidade vital, que é a capacidade de entrega, abandono, de
expansão.
Dentro da lógica natural, da espontaneidade, o
primeiro que aparece é o desejo, o impulso de atração a alguém. É um
processo energético que ninguém pode explicar, mas não implica a criação de
um compromisso, de um reconhecimento, nem que estas duas pesoas queram
compartilhar parte de suas vidas.
Existe diferença entre o amor e a paixão. Pode
haver paixão sem amor, mas nunca pode haver amor se não há paixão. Porque até
no amor místico há paixão.
Paixão significa uma exacerbação de um afeto
vinculado, transmitido, canalizado em outra pessoa ou em outra entidade. Pode
haver momentos de paixão sem amor, sendo somente uma pulsão a qual se
compartilham momentos parciais sem problemas, sempre que haja um acordo. Se não
há acordo é violação, não paixão.
Desde esta perspectiva, o amor do casal possui
duas partes: O momento de apaixonar-se, que é um espaço em que a consciência
perde os referentes, entrando um pouco na loucura, por ser um espaço atemporal,
próprio; e o amor, que implica compromisso e eleição ao reconhecer a
pessoa a qual apaixonou-se, como alguém para compartilhar a realidade
cotidiana, com um projeto emocional, racional e sexual. Sempre fala-se de que o
amor exige escolha. Ama porque escolhe e escolhe porque perde, assim, ama porque
pode perder.
O reconheciento passa pela existência de uma
satisfação e do prazer de compartilhar. Desta perspectiva o que se deve
analisar são as formas de relação que acontecem, levando em considerção que
falar de modelos na relação humana é absurdo, porque existem muitas
possibilidades de formas de relação, todas lícitas, se aceitas por ambos
membros deste sistema humano. Portanto, deve ser uma relação transparente onde
ambos possam estar num mesmo plano. Sem esta premissa, é complicado falar de
uma relação amorosa.
Conhecemos o casal clássico, o qual supostamente,
duas pessoas sentem-se atraídas e apaixonadas, criando um espaço próprio de
convivência. Mesmo em casais que compartem espaços comuns, entrando mais numa
dinâmica social tribal, onde não estão marcadas as funções hierárquicas
– pai, mãe, filho – como estão na família ocidental. Na tribo, a
responsabilidade da educação é mais ampla e portanto, há outras figuras, com
as quais, o peso, a responsabilidade e o modelo de referência não cai
estritamente sobre o pai e a mãe. As consequências educativas disto estão
pouco estudadas, como também estão pouco estudadas as consequências de casais
homossexuais que adotam filhos.
Há muitas modalidades no momento social atual,
novas formas de relação que não sabemos quais consequências podem haver por
ser muito pouco tempo de existência. Podemos opinar ideológicamente, mas não
cientificamente. O que sim está estudado, e será o que centraremos mais para
frente são as consequências traumáticas de uma separação destrutiva e as
consequências favoráveis de uma separação cúmplice, construtiva.
Em geral, nos encontramos com dois modelos
referenciais: O que nossos pais nos mostraram durante nossa convivência com
eles, ou seja, o modelo educativo familiar, e o que introjetamos das experiências
que pudemos viver afetivamente, emocionalmente e energéticamente com a primeira
figura da nossa vida, nossa mãe, o que não se pode lembrar porque se deu aos
princípios da nossa vida quando o sistema neuronal ainda não possui esta
capacidade.
O primeiro momento, o fusionalno qual se
cria realmente uma dinâmica profunda e com amor autêntico, é o que é
produzido na relação entre a mãe e o bebê, tanto a nível intrauterino como
extrauterino. Condicionando inconscientemente nossa maneira de relacionarmos com
aquele que amamos. Por exemplo, há pessoas que fusionam em excesso com o
companheiro/a e vivem uma dependência extrema, porque, geralmente, viveram uma
separação ou uma relação muito curta com a mãe durante este momento
primitivo, e vivem nesta nova pessoa, homem ou mulher, um deslocamento de afetos
maternos com todas as consequências que isso leva, tanto durante o tempo da
relação como no período de ruptura, aos quais, nestes casos, é possível
chegar a viver situações de violência ou fortes depressões.
Nascemos com a capacidade de amar, de
abrirmos ao outro, havendo um movimento para fora, nossa estrutura está em
movimento, está reciclando-se energéticamente, estando viva, portanto. Mas no
nosso sistema social atual, a dinâmica familiar tende a ser fria e distante,
limitando os afetos e as expressões emocionais, inclusive a espontaneidade da
primeira infância. Com esta tendência inibitória existem muitas famílias em
que a violência latente ou manifesta aparece cotidianamente. São nestes
sistemas em que a criança vai se refugiando em um mundo imaginário que lhe
impede o contato com a relaidade.
Quando não se vibra e não sente ao outro,
qualquer comportamento destrutivo pode ocorrer. O impulso surge de forma caótica,
não havendo emocionalidade, portanto, não havendo censura ou ética que o
breque. O modelo de referência que possuem, é o de petrificação, ou melhor,
de ausência da experiência emocional. O único que lhes resta é a
possibilidade de expressão desta emoção fora do núcleo familiar,
necessitando a emergência das pulsões destrutivas que vivem na família e que
não podem expressar em outros círculos. Assim, é quando acontece em circuitos
que no fundo estão permitindo a canalização destas pulsões que não puderam
viver no núcleo familiar. Grande parte da delinquência juvenil surge destes
sistemas familiares que vão permitindo o cultivo desta violência social
posterior ou paralela. Este é um referente
da Psicologia forense e jurídica para entender certas respostas
extremas, delitivas, que fazem parte da psicopatia social. Um ser humano que está
apenas numa situação de narcisismo permanente, isto é, ao que só se vê a si
mesmo, será uma pessoa que progressivamente imaginará a realidade,
desenvolvendo uma dinâmica patológica. Poderíamos dizer que o psicópata é o
sujeito que levou o narcisismo ao extremo de imaginar a realidade de contato com
o outro, sem emoção, até o ponto que pode destruir sem alterar-se. Há muitos
psicópatas cívicos e não só nas cadeias...
Mas em menor escala, há também um nível de
emocionalidade reprimida, de assepcia, de um certo estado apático, ao qual o
elemento narcísico é maior cada vez mais, por ir perdendo a capacidade de
contato com o outro.
De certa forma, os mecanismos sociais aos que
estamos imersos, facilitam esta falta, criando modelos de referência que
limitam a possibilidade de construir um modelo próprio de identidade, forçando
ritmos e dinâmicas que distressam e rompem com nossa capacidade de atuação
espontânea e no fundo, facilitando um individualismo baseado principalmente no
amor aos objetos, ao ter ao invés de favorecer o ser e o estar. Como dizia
Erich Fromm, prevalece o ‘ter’ sobre o ‘ser’.
Assim, vamos criando uma sociedade que tende a
valorizar cada vez mais o ser humano por ter muitos objetos e, entre esses
objetos muitas vezes estão as pessoas, e entre estas pessoas, muitas vezes está
o casal. As vezes estar com alguém pode ser algo estético. Em muitas sessões
de casais que fazem terapia essa sensação aparece, sobretudo na mulher, de
sentir-se ‘um vaso de flores’, isto é, sentir que seu companheiro está ao
seu lado porque se veste bem, porque é bonita, tem estilo e que cai bem nas
reuniões sociais. Nao se sente amada, senão possuída. O pertencer prevalece
sobre o ‘estar com’ e este, é um problema que se aborda frequentemente nas
terapias de casal.
Também é comum que o período inicial de
apaixonar-se vá modificando até o ponto de difuminar o motivo inicial do
encontro e a realidade cotidiana passa a ser vivida de maneira estranha,
convertendo-se numa convivência por interesses materiais compartilhados, mas
onde o afeto vai desaparecendo.
Este é o risco da instituição do matrimônio,
podendo cair em uma rotina em que se desenvolva uma relação perversa, porque
qualquer motivo será válido para permanecer, para não perder algo que se
sente próprio. O que num princípio é qualitativamente bonito, faz parte do
instinto, da visceralidade, converte-se progressivamente em um monstro, que vai
devorando toda flor que existe ao seu redor. E um dos promotores deste processo
é este traço narcísico do qual falei, que, todos de alguma maneira temos, e
que entre outras coisas nos impede assumir de que as coisas são temporais, de
que a vida é temporal, de que temos um tempo de existência vivendo e portanto,
com um ritmo existencial de atemporalidade, com a sensação de que vamos a ser
sempre os mesmos e que tudo ao nosso redor vai seguir igual.
No nosso esquema psíquico procuramos sempre uma
evitação da mudança, da mesma maneira que existe uma homeostase fisiológica
que nos permite um equilíbrio frente aquilo que pode ser nocivo.
Inconscienemente evitamos qualquer movimento que possa supor romper os esquemas
de espaço temporal sobre os que sentimos uma certa segurança, e por isso,
falar sobre o final de alguma coisa, sempre cria uma ansiedade, por conectar com
nosso temor ao final da vida e com o temor à morte, que neste momento, na
sociedade, é um tema mais tabú que o do sexo.
Quando iniciamos uma relação, todos
sabemos que pode terminar, mas realçam na legalização desta instituição a
frase: ‘Até que a morte os separe’, significando: ‘até que algo externo
a nós nos separe’. O que limita a liberdade de decisão, que para que
existisse, seria certo modificar por: ‘Até que a morte daquilo que motivou
nosso encontro nos leve a separarmos’. Isto é, até que a função da relação
deixe de existir e acabe seu dever. E se a função do casal humano é a de
desenvolver a capacidade amorosa de cada indivíduo, pode ocorrer que este
sistema passe a não ser válido para o desenvolvimento pessoal de um de seus
membros e apartir deste momento, há de haver um replanejamento real e aceitar a
crise. Já não é mais como antes, algo aconteceu, e assim, temos que
afrontar uma nova realidade. Aceitar a crise
não significa necessariamente a separação, mas que poderia haver uma
mudança qualitativa importante onde exista um maior encontro afetivo e mais
comunicação. Mas para isso, primeiro há de assumir a realidade, a crise.
Esse conflito pode vir motivado por uma
mudança de valores individuais, por um novo trabalho, pela entrada de uma
terceira pessoa no marco sexual, pelo nascimento de um filho, pela morte de
algum familiar, ou por qualquer
outra circunstância cotidiana que influencie diretamente na psicologia da
emocionalidade, repercutindo em seu ecossistema mais próximo.
O casal, é um sistema vivo, ao qual ninguém
pode garantir o que irá acontecer amanhã, porque ninguém pode garantir o que
nos acontecerá individualmente. Em momentos determinados, o impacto é
produzido de maneira traumática, porque perdemos a capacidade de darmos conta
do que está acontecendo ao nosso redor e perdemos o contato com o que está
acontecendo com nosso companheiro/a, quem logo irá expressar sua falta de
desejo sexual, sua pouca motivação para compartilhar atividades, ou a presença
de uma terceira pessoa, ou seu interesse pela separação. O problema é dos
dois, de quem não se dá conta e de quem acreditava que o outro estava
percebendo. Chega um momento em que o bloqueio na comunicação facilita o uso
do imaginário e da criação e interpretaçao da realidade.
Neste momento é quando necessariamente
temos que assumir a crise, o que implica em reconsiderar três nívis
fundamentais: a) O cognitivo, ou seja, como nos comunicamos, quais níveis de
transmissão de valores, idéias, projetos existe com esta pessoa. b) O
emocional, avaliando qual o nível de afetos que existe: carinho, tristeza,
anseios, frustrações. c) A capacidade de prazer que tenho com esta pessoa, de
gozo, de abandono sexual.
Um bom teste permantente no casal é ir
analisando qual destes aspectos vão enfraquecendo na relação. Estes três
aspectos têm uma grande importância, porque no fundo estamos falando de um
sistema que é compartilhado na vida cotidiana. Haverá momentos da vida em que
se dá mais importância a essa empatia sexual e momentos que será mais
importante a afetiva, a cognitiva ou a identificação laboral e social. Depende
de momentos vitais, de idades e de circunstâncias, mas estando presentes
significa que está havendo uma vivência global na relação. Se isso não
acontece, evita-se o crescimento e o desenvolvimento de facetas vitais para as
duas pessoas, que então viverão fora da relação.
Essa necessidade parcializa-se, divide-se,
começa a separar-se e romper progressivamente a relação do casal. Estes três
níveis nos indica o momento real do casal e nos permite, quando não haja outra
saída, considerar a possibilidade de perceber que é um momento definitivo em
que já não há possibilidade de reconstrução. Até este momento poderia
estar condicionado pela marca amorosa e, em um último ato de amor, deveria
procurar-se a morte deste sistema desde uma perspectiva de transformação
criativa para que cada um dos membros pudesse continuar seu caminho de maneira
criativa. Isso significa viver esta separação, não como um fracasso, mas como
uma mudança, como um final que facilita uma transmutação.
Inclusive na sociedade norte-americana, onde estatísticamente
há mais separações, comparado aos países nórdicos na Europa. Muito
interessante ver como a nova relação tenta ocultar ou negar, esquecer a relação
anterior e isso, se observa na relação com os filhos. Quando um filho de duas
pessoas passa a viver com o novo relacionamento da mãe ou do pai com um novo
matrimônio, este filho chama de ‘papai’ ou ‘mamãe’ a esta nova pessoa,
talvez para evitar um conflito cotidiano, tendo que esquecer as orígens do
passado. Algo esquecido é algo que é vivido com culpa, que se há de esconder.
Não temos porquê negar nossa vida. Pudemos viver um tempo com esta pessoa e
agora, estamos com outra, mas esta pessoa não morreu fisicamente, não
desapareceu, ainda mais sendo mãe ou pai de nossos filhos e exerceu esta função
um determinado tempo. Mas como habitualmente as separações são produzidas em
situações já extremas, o que permanece é o ódio e a destrutividade e frente
a ela, o único que resta é esquecer.
No processo de separação, as consequências
familiares devem ser cuidadas. Também deve-se assumir a responsabilidade que,
como ecossistema social, o matrimônio tem com aqueles que sobrevivem a este
ecossistema, que são os filhos. A família é um ecossistema compartilhado em
que as crianças se nutrem e se desenvolvem, assim, quando se notam afetados
pelos processos dos adultos, sendo as pessoas que podem facilitar o
desenvolvimento dos filhos, ou que podem frustrá-los e criar dinâmicas de
auto-adaptação mais ou menos violentas. Não é o mesmo que uma separação
aos quatro anos que aos oito anos ou aos doze, porque a dependência afetiva,
nutritiva com o ecossistema, é
maior ou menor, assim, a possibilidade de objetivizar as coisas com os filhos
dependerá principalmente da idade. Porém, não há uma idade melhor que a
outra, o que nos cabe analisar são as consequências de cada situação
concreta e procurar a forma de avaliar os efeitos negativos. Mas está claro que
a partir dos dez e doze anos, já há uma capacidade de assimilação grande dos
efeitos do ecossistema e portanto, o disturbio que possa ser provocado é menor
que aos três aos seis anos, idades em que a criança vive um processo de
assentamento bem delicado, por estar introjetando os modelos de referência
familiares.
O mais importante é que o processo de
separação seja progressivo, com certo ritmo e que seja o menos violento e o
mais compartilhado possível, que seja um processo de cumplicidade, ao que as
crianças, a partir de determinada idade possam participar também, ou seja, ser
conscientes do que está acontecendo. Normalmente a separação é vivida como
algo que corresponde somente ao homem e a mulher, mas se há filhos, há um
sistema familiar mais complexo, então, é importante considerá-los desde o
princípio para que eles entrem nesta realidade. É um grande erro separar a
realidade dos adultos e a das crianças, porque as crianças captam o que
acontece, mesmo se tentamos evitar os conflitos, as discussões, os afetos
negativos. E ainda sentem que não são levados em conta, que não são
reconhecidos, vivendo esta experiência na solidão, o que agrava mais o
conflito, porque a criança se isola, sentindo-se deslocada da realidade
familiar.
Por isso é importante que desde o início a
criança possa viver a separação como um processo
mais natural e humano possível – porque é humano, e o ser humano vive
pulsões e afetos de todos os tipos – e faz parte da realidae que a criança
tenha acesso ao mundo adulto, que conheça na medida de suas possibilidades essa
dinâmica de desamor entre os pais e não
desamor a eles.
Importante assinalar isso, pois há um
mecanismo inconsciente produzido em algumas crianças, pelo qual, se não se
torna consciente da realidade do adulto,
é possível que depois podem sentir-se culpados pela separação dos pais. Em
sua imaginação, algo fizeram mal, será uma carga que sempre levarão com eles,
observando isso depois na psicoterapia de adultos quando foram filhos de famílias
separadas.
Para evitar esta culpabilidade, seria bom
que participassem do processo e que esta situação de desamor fosse
compartilhada com os pais. Isso potencializar na terapia de família durante os
processos de separação. Deve-se assumir que para os filhos a maioria das
separações dos pais - exceto as que são produzidas num clima de extrema violência
– sempre há uma grande dor e um estrés para os filhos, porque sua dinâmica
cotidiana é dividida e além disso, o mundo conhecido e idealizado é derrubado.
Este estrés dependerá da atuação dos pais que se separam e da família e
amigos que estão ao redor. O processo deve ser acompanhado sutilmente,
facilitando a des-dramatização do fato, vendo as vantagens que isso possa ter,
comunicando claramente que esta separação é real e evidente. Sem dar espaço
a ambiguidades ou dúvidas e muito menos deixar a responsabilidade de uma possível
volta a outra pessoa: ‘é a tua mãe que não quer voltar, por mim, tudo
continuaria igual...’ ou: ‘é teu pai que não quer...’ Estes são os
sintomas das dinâmicas perversas que são desenvolvidas nestes momentos de dor
e de mudança e que tanto faz se os filhos sofrem ou não. O importante é que
houve a separação e a partir daí reestruturar, organizar as coisas e, entre
todos, ver como pode ser melhor para todos a nova vida cotidiana (viver perto do
colégio, etc). Os pais devem evitar consequências dramáticas para os filhos.
Neste processo, é importante que a entrada
de uma terceira pessoa (companheira/o do pai ou da mãe) na vida cotidiana dos
filhos, seja feita de maneira gradual y progressiva evitando surpresas, estando
de acordo com especialistas como S.
Goldstein. Nossos filhos têm que ir conhecendo esta nova pessoa pouco a pouco,
com tempo necessário para que seja construída uma relação, até que então,
possa a ir viver com eles. Esta
situação planejada com os filhos, permitindo que deêm sua opinião, que
sintam-se protagonistas e comecem a integrar esta nova pessoa sem o intuito de
substituição do pai ou da mãe. Todos estes elementos são avaliados no espaço
terapêutico e preventivo nestas situações.
Como disse anteriormente, a idéia de separação
é vivida como idéia de morte, e portanto, como algo terrível, sobretudo
quando são criadas estas dinâmicas de tipo fusional psíquica e emocionalmente
falando. No momento em que o outro realmente não está, a pessoa conecta com o
pânico de perder sua própria sensação de existir.
Por isso em muitas separações aparecem autênticas
depressões, por começar a viver uma forte sensação de vazio, em que perde o
sentido da vida. Estas reações são sintomas que refletem a forte dependência
criada em que o outro ‘lhe roubou a alma’.
Em muitos casos, por intuir isso, algumas
pessoas se negam a deixar o casal tentando por todos os meios brecar a separação
e evitar conflito. Se coloca em uma posição estática, em que faz aparecer o
sofrimento crônico. Neste momento é quando esta instituição começa a
perverter-se, porque são criados mecanismos para evitar o contato com o fato de
que o casal possivelmente já não facilita a função originária.
Possivelmente porque primeiro é importante assumir a crise e permanecer nela,
tentar evoluir juntos, tentar que esta mudança seja positiva para os dois e
procurar que esta relação possa ser modificada. Isso pode acontecer dentro do
casal ou com a ajuda de um especialista em terapia de casal, sempre que as duas
pessoas estejam de acordo de que sozinhos, não possuem esta capacidade de
resolução.
Mas se durante um tempo a mudança não é
produzida e com isso, há muito sofrimento, mesmo que seja para uma das duas
pessoas, há de planejar-se a finalização como algo positivo e necessário,
vendo como o que permite a liberdade de movimentos afetivos de ambos membros do
casal e seu crescimento individual. O fracasso está na covardia de não assumir
esta realidade e de pensar ‘você me evitaria sofrimento estando comigo’.
Com esta posição a outra pessoa entra em defesa, em violência e na
destrutividade, situação que pode permanecer no tempo, afetando a todos os
membros do sistema familiar, como já disse anteriormente.
Os seguimentos que fizemos em clínica das
famílias que vivem em dinâmicas destrutivas, mostraram a existência de dois
tipos destrutividade. A digital, que é a violência direta, e a analógica, que
é a sutil, como a chantagem, a ameaça, a culpabilidade. Lembro de um casal em
que o marido, entrava em uma reação cardíaca, a ponto de ser levado ao
hospital a cada vez que percebia a atitude de sua mulher de dizer algo
conflitivo. Automaticamente ela abandonava a idéia
porque ‘não podia sentir-se responsável da morte de seu marido’.
Assim estiveram dez anos até chegarem ao consultório e decifrarmos a chave do
“doente imaginário” (Moliere). Não morreria, mas ela, com razão não se
arriscava e inibia o movimento. Ele sofria por se dar conta de que estava
criando uma resposta de evitação do conflito e que sua mulher não era feliz,
mas ele também não podia evitar esta situação psicossomática.
Recorrer a instrumentalização dos filhos
também é bem frequente, deixando o outro membro do casal responsável pelo
mal-estar e sofrimento que vive a criança para evitar o processo de separação.
Ou até dinâmicas de chantagens em relação ao aspecto econômico. Neste caso
são as mulheres que estão mais vulneráveis, tendo que ceder seu desejo de
mudança pelo medo de não poder encarar a realidade cotidiana com uma economia
que permita-lhe sobreviver, pois são muitas as mulheres que não desenvolvem
dinâmicas laborais fora do lar.
Mas, como vamos observando, todas estas
atitudes provocam uma dinâmica destrutiva que vai paralizando cada vez mais a
possibilidade de um reencontro afetivo e amoroso, levando vidas paralelas e cada
vez mais distantes, convertendo a convivência num espaço de sofrimento e ódio,
acompanhados de solidão compartilhadas por interesses e medos. E enquanto o
tempo segue seu curso, havendo poco tempo para encontrar novas relações e
construir um novo sistema familiar.
Este momento é quando a psicoterapia pode
ajudar, quando realmente uma pessoa não pode abandonar seu companheiro/a, por
sentir-se culpado ou por medo da solidão e do vazio existencial, adotando posições
sádicas e pressionando, culpabilizando ao outro/a ou entrando numa posição de
vítima, reflexo da típica relação sadomasoquista que domina os
relacionamentos em nosso sistema social.
Sabemos que é possível criar transtornos
psicossomáticos por conflitos conjugais mal resolvidos, tão grave quanto há
violência direta, alcolismo ou problemas com drogas. Dentro destes conflitos,
para os que a atenção clínica é necessária, encontra-se a resposta de
algumas pessoas com a violência doméstica. Existe uma grande quantidade de
mulheres maltratadas que mantém o casamento sem denunciar o marido, chegando a
justificar as ações violentas. Nestes casos, a vítima não pode deixar de sê-lo,
porque é maior o sofrimento que sente se imagina a dissolução deste casamento,
que o sofrimento por compartilhar uma violência doméstica permanente. Dentro
desta violência há níveis de estrés (distrés) e sofrimento patológicos bem
fortes.
Por isso, frente a um conflito relacional, há
apenas duas alternativas criativas: A de sair juntos da crise e aprender com ela
para encontrar uma maior satisfação na relação, ou, a separação, mesmo que
seja somente uma das duas pessoas que queira depois de encarar a crise em comum.
Permanecer juntos neste estado de confusão, sofrimento, insatisfação,
incomunicação, ausência de atração e desejo e, inclusive violência e
sadismo, implica num estado de patologia a dois e cumplicimente mantida.
E não é questão de procurar culpados. É
certo que sempre há um desencadeador, mas a realidade é que este sistema
relacional simplesmente deixou de cumprir a sua função.
Mas geralmente cada qual vê culpado ao
outro/a acentuando-se a paranóia social, a sensação de ameaça que vicia a
relação, impossibilitando ainda uma separação civilizada e minimamente
afetiva e amistoza. Esta é a obra das funções da psicoterapia focada na atenção
de casais: Permitir uma separação criativa, com um processo de luto razoável
e sem que os filhos sejam os ‘bodes expiatórios” do sofrimento e frustração
dos pais.
Permanecer na crise, aprender com ela e
encontrar uma saída entre os dois, ou mesmo individualmente, mas de maneira
criativa, seríam os objetivos principais da terapia neste momento. Para isso,
é necessário compreender a lógica caracterial de cada membro da família e a
particularidade de seu sistema relacional. E desde aí, abordar os quatro
aspectos que caracterizam o casal: A comunicação, o manejo das pulsões no
cotidiano, a sexualidade e os projetos em comum.
Se bem que é certo que a psicoterapia tem
uma função mais importante, que seriam as medidas preventivas, que todo o
casal deveria tomar para não chegar ao ponto de recorrer a ela. E das mais
importantes seria a de que houvessem espaços de comunicação, momentos para
aprofundar na relação, momentos de prazer, de expansão, de elaboração de
conflitos, de escuta ao outro. Momentos para poderem se olhar, momentos de
carinhos, caricias e amor. Momentos próprios, genuínos, criativos,
compartilhados também com outras pessoas. Momentos que podem prever o
embrtucecimento, consequente da monotonia, a rotina e a evitação do contato.
Se somos capazes de permanecer nesta dinâmica, a experiência de casal, dure o
tempo que for, será sempre gratificante e haverá cumprido sua função para
seus membros, o desenvolvimento da nossa capacidade de amar.